Curso livre presencial
OBJETIVOS GERAIS
– Investigar o Sudário de Turim como problema histórico, filosófico, imagético e epistemológico;
– Desenvolver os fundamentos da iconofotologia aplicados à compreensão da imagem sindônica;
– Analisar as relações entre o Sudário, a fotografia e os diferentes regimes das imagens técnicas;
– Refletir sobre a noção de vestígio, presença e inscrição luminosa na cultura visual;
– Discutir a permanência da imagem sindônica na iconografia cristã e na visualidade contemporânea;
– Compreender o Sudário como objeto liminar entre arte, ciência, técnica e transcendência.
METODOLOGIA
O curso será desenvolvido a partir de abordagem interdisciplinar, articulando:
teoria da imagem; fenomenologia; filosofia da técnica; história da arte; estudos da visualidade; teoria da fotografia; e análise imagética.
As aulas combinarão exposição teórica, análise comparativa de imagens, projeção de materiais visuais, discussão conceitual e leitura comentada de textos filosóficos e historiográficos.
PÚBLICO-ALVO
Pesquisadores e estudantes de arte, filosofia, teologia e comunicação; interessados em teoria da imagem e cultura visual; profissionais da área museológica; pesquisadores do Sudário de Turim; público interessado em arte sacra, fotografia e transcendência.
JUSTIFICATIVA
O Sudário de Turim permanece como uma das imagens mais enigmáticas e perturbadoras da história ocidental. Situado na fronteira entre arte, técnica, ciência e religiosidade, o Sudário desafia categorias tradicionais de interpretação e exige uma abordagem interdisciplinar capaz de compreender sua complexidade visual, material e simbólica.
Ao propor uma leitura iconofotológica da imagem sindônica, o curso pretende ampliar o debate para além da dicotomia entre autenticidade e falsificação, investigando o Sudário como problema filosófico da imagem e como paradigma crítico da visualidade contemporânea.
Nesse sentido, a proposta dialoga diretamente com as discussões atuais sobre fotografia, inteligência artificial, regimes de visualidade, memória imagética e crise do referente, inserindo o Sudário no centro dos debates contemporâneos acerca da imagem e da transcendência.
10 de Agosto de 2026
AULA 1 – O Sudário de Turim: história, percurso e controvérsias
Investigar o Sudário de Turim não apenas como relíquia cristã ou artefato arqueológico, mas como objeto epistemologicamente instável, cuja existência desafia os limites tradicionais entre documento histórico, imagem artística, evidência material e experiência religiosa.
A aula pretende demonstrar que o verdadeiro impacto do Sudário não reside apenas na questão de sua autenticidade, mas no fato de que ele introduz uma crise classificatória: ele não se deixa reduzir plenamente às categorias convencionais da arte, da ciência, da religião ou da técnica.
Estrutura
– O que é o Sudário?
– A trajetória histórica
– O impacto de Secondo Pia em 1898
– As controvérsias
– O Sudário como objeto limiar
Eixos conceituais
– História da relíquia
– Formação do imaginário sindônico
– Crise epistemológica da imagem
– O problema da autenticidade
– O estatuto ontológico do vestígio
Conceito-chave da aula
– O Sudário não é apenas uma relíquia religiosa: ele inaugura um problema epistemológico da imagem.
17 de Agosto de 2026
AULA 2 – Luz, revelação e presença: fundamentos iconofotológicos
Desenvolver os fundamentos filosóficos e ontológicos da iconofotologia, demonstrando como a imagem do Sudário pode ser compreendida como inscrição luminosa de presença e não apenas como representação figurativa.
A aula buscará reconstruir, historicamente, a ideia de luz enquanto categoria metafísica, estética e revelacional, desde a tradição neoplatônica até os debates contemporâneos sobre visualidade técnica. A intenção é mostrar que, no Sudário, a luz deixa de funcionar apenas como meio de visibilidade e passa a operar como agente constitutivo da própria imagem.
Estrutura
– O problema filosófico da luz
– Heidegger e o desvelamento
– Flusser e a imagem técnica
– Didi-Huberman
– A iconofotologia
Eixos conceituais
– Ontologia da luz
– Fenomenologia da revelação
– Iconofotologia
– Presença imagética
– Imagem como emergência luminosa
Conceito-chave da aula
– O Sudário não “representa” apenas um corpo: ele funciona como vestígio luminoso.
24 de Agosto de 2026
AULA 3 – O Sudário e a fotografia: o primeiro “negativo” da história?
Analisar de que modo o Sudário de Turim antecipa, estruturalmente, características próprias da fotografia moderna e das imagens técnicas contemporâneas, especialmente no que se refere à lógica do negativo, à inscrição luminosa e à formação não pictórica da imagem.
A aula buscará demonstrar que o choque provocado pelas fotografias de Secondo Pia não ocorreu apenas porque revelaram um “rosto mais nítido”, mas porque deslocaram, de maneira radical, a compreensão da imagem sindônica:
o Sudário passou a comportar-se como imagem tecnicamente latente.
Estrutura
– Formação da imagem fotográfica
– A descoberta do negativo
– Paralelos com a fotografia analógica
– Relações com a imagem digital
– O Sudário como protofotografia?
Eixos conceituais
– Fotografia e negatividade
– Imagem latente
– Genealogia da imagem técnica
– Vilém Flusser e a pós-escrita
– Visualidade maquínica
Conceito-chave da aula
– O Sudário antecipa princípios da imagem técnica séculos antes da fotografia moderna.
31 de agosto de 2026
AULA 4 – O Sudário e os regimes da fotografia: da inscrição química à imagem algorítmica
Investigar, historicamente, os diferentes regimes da fotografia – químico, analógico, eletrônico, digital e algorítmico – demonstrando como cada transformação técnica modifica, profundamente, o estatuto da imagem, da presença e da verdade visual.
A aula buscará mostrar que o Sudário de Turim estabelece um diálogo singular com todos esses regimes imagéticos, funcionando, simultaneamente, como imagem pré-fotográfica, protofotografia, vestígio luminoso, superfície de inscrição e paradigma crítico da visualidade contemporânea.
Mais do que comparar, de maneira formal, o Sudário à fotografia, a proposta é compreender como a imagem sindônica parece antecipar problemas centrais da história das imagens técnicas: negatividade, latência, revelação, intensidade luminosa, indexicalidade, codificação visual e crise do referente.
A aula pretende ainda demonstrar que cada regime fotográfico produz uma determinada relação entre corpo e imagem, luz e matéria, técnica e presença, visível e invisível. Nesse sentido, o Sudário será analisado como um objeto transversal que atravessa toda a história da visualidade técnica sem jamais coincidir plenamente com ela.
Estrutura
– O regime protofotográfico
– O regime químico-analógico
– O regime eletrônico
– O regime digital
– O regime algorítmico
– O Sudário como contramodelo imagético
Eixos conceituais
– Regimes da fotografia
– Ontologia da imagem técnica
– Vestígio luminoso
– Negatividade fotográfica
– Latência imagética
– Indexicalidade
– Desmaterialização da imagem
– Simulação algorítmica
Conceito-chave da aula
– O Sudário atravessa todos os regimes da fotografia sem jamais pertencer integralmente a nenhum deles.
14 de setembro de 2026
AULA 5 – Corpo, sofrimento e inscrição: a materialidade da imagem
Investigar o corpo sindônico como superfície de inscrição traumática e vestigial, analisando como a imagem do Sudário de Turim opera, simultaneamente, como vestígio corporal, memória traumática e presença residual.
A aula pretende demonstrar que o Sudário desloca, de maneira radical, a relação tradicional entre imagem e corporeidade: o corpo não aparece ali como objeto representado, mas como fonte emissora de vestígios.
Estrutura
– Anatomia da paixão
– Corpo e vestígio
– O problema da tridimensionalidade
– O Sudário e a arte medieval
– A imagem como “ferida”
Eixos conceituais
– Semiótica do índice
– Corpo vestigial
– Materialidade da dor
– Imagem traumática
– Presença residual
Conceito-chave da aula
– O Sudário é menos uma “imagem artística” do que uma superfície de inscrição.
21 de setembro de 2026
AULA 6 – O Sudário no século XXI: inteligência artificial, imagem digital e transcendência
Refletir sobre o lugar do Sudário de Turim no contexto contemporâneo de crise da imagem, marcado pela ascensão da inteligência artificial, das deepfakes e da dissolução dos vínculos tradicionais entre visualidade e referente.
A aula buscará demonstrar que o Sudário adquire relevância inédita justamente em uma época em que as imagens deixam, progressivamente, de possuir lastro material identificável. Diferentemente das imagens fotográficas tradicionais – ainda dependentes da incidência luminosa sobre corpos e objetos – as imagens algorítmicas emergem de cálculos estatísticos e sínteses computacionais.
Pretende-se mostrar que essa transformação altera profundamente o estatuto da verdade visual, da evidência imagética e da própria noção de presença.
Estrutura
– O mundo das imagens técnicas
– A crise contemporânea da verdade visual
– Inteligência artificial e imagens sem referente
– O Sudário como contramodelo
– Iconofotologia contemporânea
– Transcendência e visualidade no século XXI
Eixos conceituais
– Inteligência artificial e imagem
– Deepfake e simulacro
– Crise do referente
– Ontologia digital
– Transcendência e visualidade contemporânea
Conceito-chave da aula
– Em uma época de imagens sem referente, o Sudário permanece como vestígio resistente da presença.
28 de setembro de 2026
AULA 7 – O rosto impossível: o Sudário, a iconografia de Cristo e a sobrevivência das imagens
Investigar como a imagem do Sudário de Turim pode ter influenciado – direta ou indiretamente – a constituição histórica da iconografia cristã do rosto de Cristo, analisando a permanência de determinados arquétipos visuais ao longo dos séculos.
A aula buscará demonstrar que o Sudário não atua apenas como objeto devocional ou vestígio material, mas como possível matriz imagética de um modelo visual que atravessou a arte bizantina, medieval e ocidental.
Pretende-se compreender de que maneira determinadas recorrências formais – cabelos longos bipartidos, barba, assimetrias faciais, frontalidade hierática, olhos profundos e expressões de sofrimento silencioso – reaparecem, continuamente, nas representações cristológicas da história da arte.
A aula procurará mostrar que o problema central não é, simplesmente, provar uma influência direta, mas compreender como certas imagens sobrevivem culturalmente, reorganizando o imaginário coletivo mesmo quando sua origem permanece parcialmente oculta.
Estrutura
– O problema do rosto de Cristo
– O nascimento da iconografia cristológica
– O Sudário e a hipótese da continuidade imagética
– Aby Warburg e a sobrevivência das imagens
– Georges Didi-Huberman e a imagem sobrevivente
– O rosto impossível
Eixos conceituais
– Iconografia cristológica
– Arquétipo visual
– Memória imagética
– Sobrevivência das imagens
– Pathosformel
– Anacronismo
– Vestígio
– Persistência iconográfica
– Conceito-chave da aula
– O Sudário talvez seja menos um retrato de Cristo do que a sobrevivência histórica de um rosto impossível.
Autores e referenciais teóricos
– Aby Warburg
– Georges Didi-Huberman
– Hans Belting
– Hans Blumenberg
– Martin Heidegger
– Jack Brandão
– Jean Baudrillard
– Philippe Dubois
– Roland Barthes
– Vilém Flusser
– Walter Benjamin
Jack Brandão – Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisador da arte medieval, renascentista e seiscentista, em especial de sua recepção pelo leitor hodierno; desenvolveu o conceito de iconofotologia, com o qual mantém sua linha de pesquisa. Autor de livros sobre o tema, bem como de artigos em revistas acadêmicas do Brasil e do exterior; romancista e poeta. Diretor do Centro de Estudos Imagéticos CONDES-FOTÓS e editor da revista acadêmica Imagens em Foco.
07 dias de aulas
Datas: 10, 17, 24, 31 de agosto, 14, 21 e 28 de setembro de 2026 (segundas-feiras)
Aulas: 15h00 às 17h30 (intervalo para o café)
Carga horária: 09 horas
Valor: R$ 415,00 à vista
Inscrições: cursos@museuartesacra.org.br
Informações: (11) 99144-3223 (somente mensagens)
Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo
Endereço: Avenida Tiradentes, 676, Luz. Metrô Tiradentes.
Estacionamento gratuito: Rua Jorge Miranda, 43
Certificado entregue ao final do curso













