Denise Milan ocupa o Museu de Arte Sacra de São Paulo com a mostra “Elementares”
Exposição reúne quatro décadas de pesquisa com geodos e cristais para investigar o “drama da matéria” e propor uma nova leitura da relação entre arte, ciência e natureza.
O Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS-SP), instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, administrado pela Organização Social de Cultura SAMAS, apresenta a exposição “Elementares”, da artista Denise Milan, que apresenta um conjunto de obras que articulam arte, ciência e pensamento contemporâneo a partir da investigação da matéria. A mostra, com curadoria de Naomi Moniz, destaca a produção recente da artista em diálogo com sua trajetória consolidada, marcada pelo uso de geodos e cristais como elementos centrais de sua pesquisa.
Reunindo um conjunto significativo de obras, a exposição investiga os sistemas dinâmicos da matéria em nível molecular, articulando conceitos como caos, criatividade, sobrevivência, adaptação e transformação. No centro desse percurso está o que a artista define como o “drama da matéria” — uma narrativa que compreende a Terra como organismo vivo, portador de memória e energia.
Ao tratar a pedra como um banco de dados, Denise Milan propõe uma leitura da matéria como arquivo de processos que atravessam o tempo profundo do planeta, revelando histórias formadas ao longo de milhões de anos. Os trabalhos apresentados evidenciam os ciclos de criação e destruição que estruturam a vida na Terra e apontam para uma mudança de perspectiva: antigas metanarrativas cedem espaço a uma fabulação especulativa que inclui toda a natureza como agente ativo.
Nesse contexto, animais, florestas, microrganismos e minerais assumem protagonismo, ressaltando a interdependência entre os diferentes sistemas de vida e a delicada sintonia que sustenta o universo. Combinando rigor conceitual e força visual, a exposição aproxima arte e ciência para refletir sobre o papel da matéria como potência criativa e narrativa.
Com “Elementares”, Denise Milan convida o público a repensar as relações entre humanidade e natureza, em um momento em que compreender os ciclos e a energia do planeta se torna cada vez mais urgente. A mostra reafirma a relevância de sua trajetória no cenário contemporâneo e propõe uma experiência que conecta estética, conhecimento e imaginação sobre os futuros possíveis da Terra.
A exposição se organiza em cinco núcleos que funcionam como uma travessia entre matéria, origem, transformação e percepção. Cada conjunto ocupa uma etapa desse percurso e ajuda a orientar o visitante dentro da pesquisa de Denise Milan sobre arte, ciência, natureza e espiritualidade.
Elementares I reúne imagens derivadas de geodos e cristais em que surgem figuras humanas, organismos e formas híbridas inscritas na própria matéria mineral. As obras partem da observação de basaltos e quartzos cristalizados ao longo de milhões de anos. Denise Milan trata essas formações como “enunciações de vidas eternas” e associa o núcleo às origens da matéria e aos processos de coexistência entre diferentes estruturas minerais.
Elementares II amplia essa investigação e desloca as figuras minerais para uma dimensão mais corporal e escultórica. O núcleo apresenta peças em alumínio fundido derivadas das formas observadas nos cristais, transformando desenhos minerais em presenças físicas. Aqui, a exposição aproxima geologia, corpo e memória, propondo uma leitura da matéria como organismo em transformação contínua.
Imaginários da Terra articula pedra, metal e quartzito em obras que aproximam ciência, imaginação e paisagem. Denise Milan trata a natureza como linguagem e constrói composições em que minerais, superfícies e vazios funcionam como mapas simbólicos da formação terrestre. O núcleo dialoga diretamente com a ideia de escutar a natureza “em sua própria linguagem”, citada no catálogo a partir do físico Frank Wilczek.
Explosões concentra trabalhos ligados à expansão, ruptura e energia interna dos cristais. As obras partem de estruturas geométricas e simétricas encontradas na natureza para discutir instabilidade, transformação e imprevisibilidade. O catálogo relaciona esse núcleo à complexidade do universo e às formas de organização da matéria.
Origens funciona como eixo conceitual da mostra e conecta todos os núcleos anteriores. A ideia de origem aparece tanto no sentido geológico quanto espiritual: origem da matéria, da vida, da consciência e das imagens. Ao longo do percurso, a exposição aproxima ciência, mineralogia e imaginação para construir uma narrativa em que o ser humano deixa de ocupar o centro e passa a ser entendido como parte de um processo cósmico, biológico e terrestre mais amplo.
“Denise tece fábulas como metáfora para sugerir uma revolução nos padrões de comportamento humano e uma nova conduta, centrada na conexão, cooperação e cura, em vez de polarização, cobiça e rivalidade. Elementares não apenas expande os limites artísticos que Milan vem explorando ao longo de toda a sua carreira, mas também nos incita a questionar não apenas a maneira como nós, humanos, pensamos que devemos interagir e nos comportar uns com os outros, mas nos vermos como parte da Natureza e da rede da vida. É um convite para uma jornada além de nós mesmos: um “transumanar” como diria Dante Alighieri, adquirir mais conhecimentos para evoluir e acompanhar a “Estrela Guia” às cavernas escuras e profundas do ventre da terra. Nelas, as figuras estranhamente familiares despertam lembranças perdidas de estados inconscientes da memória ao nos reconhecermos– seres flutuando em lugares do “antes “ e “depois”, suspensos na simetria do tempo e do espaço que revela o centro, lugar de origem e do futuro.”
– Naomi Moniz, curadora
Denise Milan
Denise Milan (São Paulo, 1954) é uma artista global, com obras presentes nos cinco continentes. Ao longo de mais de quarenta anos de trajetória, sua pesquisa mergulha na geologia e na essência das pedras, integrando de forma singular ciência, tecnologia e natureza.
Sua produção transita entre performance, arte pública, artes cênicas, ópera, poesia, gravura, videoarte e multimídia, explorando múltiplas linguagens para criar narrativas poéticas e visuais de grande força simbólica.
Milan desenvolve também um sólido trabalho acadêmico na interseção entre arte e ciência, colaborando com cientistas do MIT (Cambridge, EUA), da University of ASU (Arizona, EUA), da University of Utah (Salt Lake City, EUA), e da USP (São Paulo, Brasil).
Suas obras e instalações já foram apresentadas em instituições de destaque no Brasil e no exterior, como o MoMA PS1 (Nova York), Museum of Contemporary (Chicago), Barbican Centre (Londres), MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (São Paulo), MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo (São Paulo), Adler Planetarium (Chicago) e Fondazione Berengo Art Space (Veneza).
Naomi Moniz
Naomi Moniz nasceu em Campos do Jordão, formou-se em Letras Anglo-Saxônicas na PUC de Campinas. Mestre em Letras na Sorbonne Nouvelle, Paris III, fez doutorado no Department of Romance Languages and Literatures, Harvard University.
Foi professora no Departamento de Português em Harvard University entre 1979 e 1985; na Georgetown University, no Departamento de Espanhol e Português, atuou como Diretora de Literatura Comparada e do Programa de Estudos Brasileiros.
Publicou o livro As viagens de Nélida, a escritora (Ed. Unicamp, 1993), premiado pela APCA como melhor ensaio, e vários estudos em revistas acadêmicas nos Estados Unidos, Europa e Brasil.
Em 2002, foi-lhe outorgada a Comenda Barão do Rio Branco do Itamaraty pelo trabalho de divulgação da cultura brasileira nos Estados Unidos.
Trabalha na equipe do estúdio Denise Milan desde 2012; fez várias palestras sobre a obra da artista na Georgetown University, Wilson Center, Brigham Young University, Marriott Art Museum, Salt Lake City. Coeditora da Revista Cidadania, Arte e Ação Comunitária, sobre o programa de Arte como prática social da artista, que inclui o ensaio “A Pedra como metáfora” (Cadernos de Cidadania, ano 6, edição 10, pp. 40-42, 2015).
Exposição: “Elementares”
Denise Milan
Curadoria: Naomi Moniz
Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo – MAS-SP
Endereço: Avenida Tiradentes, 676, Luz, São Paulo
Acesso e estacionamento pela Rua Dr. Jorge Miranda, 43 (sujeito à lotação)
Abertura: 28 de maio de 2026, 18h (evento exclusivo para convidados)
Período de visitação: de 29 de maio a 27 de setembro de 2026
Horário: Terça a domingo, das 09h às 17h (entrada até às 16h30)
Mais informações: (11) 3322-5393 / mas@museuartesacra.org.br
Apoio: DAN Galeria













