Método
O curso acontecerá no modo “Live Class” (aula online ao vivo), sendo as aulas gravadas. As gravações são disponibilizadas aos alunos três dias após cada aula ao vivo e ficam disponíveis durante todo o período do curso e por mais 15 dias após seu término. Depois disso, são automaticamente retiradas do sistema.
OBJETIVO GERAL
Compreender como o Ocidente medieval construiu a feiúra como categoria estética, moral e social e a usou como instrumento pedagógico.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Identificar os fundamentos conceituais do feio e sua persistência por toda a Idade Média.
Comparar a feiúra medieval com o pensamento ético e social brasileiro contemporâneo.
EMENTA
O Ocidente medieval construiu uma gramática do feio: a deformação como privação de forma, o monstro como sinal do divino nos limites do mundo, o demônio com corpo de vício e uma história de ascensão no pensamento religioso e social, o outro como corpo marcado, na dificuldade de associar estabilidade e diferença. O feio medieval é instrumento pedagógico, moral e social, aviso que marca a diferença e legitima a exclusão. A feiura decidida na iconografia do demônio, desenhada nas bordas do mundo e nos mapas do inferno e do purgatório, engrenada na perseguição e igualada pela morte. Na Idade Média, a feiúra se institucionaliza e no permite traçar paralelos com a realidade contemporânea brasileira.
PROGRAMA
07 de abril de 2026
Encontro 1 — A Gramática do Feio
O que significou, para a cultura medieval, chamar algo de feio? Como esse conceito se relaciona com a realidade contemporânea? O belo é ordem, bondade, proporção e justiça: a forma conforma-se ao plano divino. Essa visão irá dominar o pensamento medieval. Nela, o feio se define como desarranjo da ordem. Mas dentro do plano divino, o feio e o monstruoso têm uma razão de ser. A feiúra é vista como sombra do mal. As palavras dizem as coisas, pois o nome é imanente à realidade vivida e já soa o o aviso. O monstrum, do latim monere (advertir), é sinal do futuro. O feio é pensado e temido, mas é uma realidade com a qual se conviver. O pensamento erudito medieval evita a deformação.
14 de abril de 2026
Encontro 2 — A biografia do Demônio – a feiura que evolui
Por que o mal deve ser feio? O demônio da Bíblia não tinha corpo e a tradição medieval lhe deu um, deformado e feio, como a sua moral e inteligência. Os demônios nascem estúpidos no pensamento medieval e herdam uma série de narrativas pagãs: com o passar do tempo, se hierarquizam e ganham soberania no inferno. O nal se individualiza nas visões do além, nas mulheres e nos eremitas atormentados por demônios com rosto e desejo de sexo. No período românico, a iconografia se fixa, e a boca do inferno vira porta. O mal precisa de corpo para ser reconhecido: ogros, monstros, fadas, bruxas, espíritos, anões, lobisomens e outros monstros A feiúra transforma-se de descrição para uma pedagogia do medo. No fim do período medieval, a demonologia se torna doutrina: o diabo herege com pactos e exorcismos nos revela o adversário organizado em sistema
28 de abril de 2026
Encontro 3 — O Monstro: a Geografia das Bordas e a Pedra do Portal
Onde morava o monstro? Nos limites do mundo, do texto, da floresta. Nas bordas dos mapas, as raças monstruosas herdadas do pensamento grego – cinocéfalos, blemias, esciápodes – organizam a periferia como prova do poder criador de Deus. Seres híbridos, sereias e bestas ocupam o limiar entre o sagrado e o profano. O animal permite a leitura moral e constrói simbologias. O feio ensina onde termina o mundo. O ser pervertido. Etimologicamente, perverter é torcer em volta, desvirar o que estava reto. O mal medieval é torção, desvio da ordem que Deus estabeleceu que provoca a ausência do bem. O mal é feio e a feiura é perversão. Por isso o corpo torto lê-se como alma torcida, sintoma, rosto e sentença do desvio. O mal na geografia do mundo e dos corpos. A perversão, a periferia e a fronteira ainda nos dizem onde “termina o mundo”?
05 de maio de 2026
Encontro 4 — Uma visita ao Inferno
O que o pecado faz ao corpo e para onde ele vai? O desejo sexual e o demoníaco. A confissão auricular nasce e evolui, tornando-se regra fixada em Latrão IV (1215). O pecado havia se tornado classificável e a feiura era o seu rosto: Eva como origem da tentação, a gula e a luxúria ganhando corpos, a velhice e a miséria como tipos morais. Em paralelo, o além ganha geografia: o purgatório nasce e o inferno vira máquina de tortura com mapas próprios e demônios que registram pecados e ajustam contas registrada na arquitetura, nos vitrais e na pintura. O terror é método pastoral: o tribunal do além exerce jurisdição sobre a terra, sustentando a disciplina que a pregação ensina. E entre a tentativa de ordenar o caos, o feio, mais uma vez, tem algo a dizer de belo.
12 de maio de 2026
Encontro 5 — O Corpo Marcado: Doença, Lei e Alteridade
Quem a sociedade considera feio, ela o expulsa. A lepra é a doença-signo com regime institucional próprio: segregação, roupa distintiva, leitura moral da enfermidade. O embate de São Francisco com a lepra. Todo corpo doente é prova e sentença. O judeu recebe no imaginário o rosto de Judas. Crescem as animosidades e a acusação de assassinato ritual, a profanação da hóstia, das roupas às expulsões do século XIV. O herege cátaro é o interno a erradicar; o sarraceno, o externo das Cruzadas; a viúva, protótipo da feiticeira no horizonte do XV. O Ocidente montou a engrenagem que transforma diferença em deformidade e em título de perseguição. Segregação iconográfica e legal caminham juntas: a imagem ensina a identificar, o direito exige a diferença.
19 de maio de 2026
Encontro 6 — O Grotesco e o Macabro
As duas faces finais do feio. De um lado, a morte: as transis sorriem da própria decomposição, a dança macabra puxa papa e camponês pela mesma mão esquelética revelando uma última lição de igualdade, ensinada pela feiura da carne. Do outro, a margem e o corpo grotesco da cultura popular aberto, exagerado, festivo, afirmando a vida material: o grotesco permite o que a doutrina proíbe, e a festa dos tolos inverte a ordem por um dia. O feio medieval reapresentado como beleza. belezura e feiura como conceitos complementares de uma mesma norma e sua negação, o sagrado e seu avesso. O mundo se contorce e questiona: o que é, afinal, ser belo?
PÚBLICO ALVO
Estudantes de História, Artes, Letras, Filosofia e Semiótica, e público em geral disposto a investigar o imaginário e a cultura medievais— em constante diálogo com a cultura contemporânea.
SOBRE O DOCENTE
O Prof. Dr. José Luís Landeira é professor do Museu de Arte Sacra de São Paulo, formado em Línguas e Literaturas Neolatinas pela Universidade de Coimbra, mestre em Filologia e Língua Portuguesa (USP) e doutor em Linguagem e Educação (USP), é pós doutor em “Materialidades da Literatura” pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Sua pesquisa incide sobre as relações entre a Idade Média e a Contemporaneidade, a Linguagem Artística e a Transcendência.
Período: 07, 14, 28 de abril e 05, 12 e 19 de maio de 2026 (quintas-feiras)
Horário: Das 17 às 19 horas
Valor: R$ 370,00
Carga horária: 12h
Inscrições: cursos@museuartesacra.org.br
Informações: (11) 3322-5393
Whatsapp: +55 11 99144-3223
CERTIFICADO
As aulas serão ministradas online na plataforma Teams.
BIBLIOGRAFIA
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